Todo dia eu sento diante de mim mesmo.
Pego as minhas mãos, do outro lado da mesa, como quem segura a mão de um amigo. E me encaro. De verdade. Sem desviar o olhar, sem fingir que está tudo bem quando não está.
E eu me escuto.
Pergunto como eu estou, e espero a resposta. A real, não a automática. A que vem depois do silêncio, quando a primeira desculpa já passou.
Parece simples. Não é.
Porque a maioria das pessoas foge justamente disso. Passa a vida inteira ocupada, barulhenta, cercada de gente, de tela, de ruído, para nunca precisar sentar nessa mesa. Elas conhecem todo mundo, menos quem mora dentro delas. Sabem a opinião de cada um sobre tudo, menos a própria.
É mais fácil se distrair do que se encarar. O espelho de fora, o do banheiro, qualquer um encara. O espelho de dentro, quase ninguém.
Mas é nessa mesa que a vida muda.
É ali que você descobre o que está te pesando antes que vire crise. Que percebe a mentira que está contando para si mesmo. Que escuta o desejo que você vinha abafando com pressa. Ninguém te conhece se você mesmo não se visita.
Poucas pessoas se dão essa chance.
A de parar. A de sentar. A de segurar a própria mão e perguntar, com carinho, como eu realmente estou?
Eu me dou essa chance todo dia.
E talvez seja por isso que, mesmo nos dias difíceis, eu nunca me perco por completo.
Porque eu sei o caminho de volta para mim.
Eu moro aqui.
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