Parte II: As Lições
Vamos começar pelo que vocês mais desperdiçam, disse a voz. O tempo.
Vocês tratam o tempo como se ele fosse infinito. Dizem depois. Dizem amanhã. Dizem quando a vida melhorar. E vão empilhando os depois, um sobre o outro, até o dia em que não sobra mais nenhum. Eu já vi bilhões de vocês chegarem aqui, quase todos com a mesma frase na boca: eu achei que teria mais tempo. Ninguém nunca tem.
A minha outra mão virou luz.
Agora as pessoas. Vocês deixam quem ama esperando. Não ligam, não dizem, não abraçam. Guardam o carinho para uma ocasião especial que nunca marcam. E aí alguém chega aqui antes da hora, e do outro lado fica um vivo cheio de palavras que não disse. Não existe peso maior do que o eu devia ter dito. Diz agora, enquanto o outro ainda tem ouvido para escutar.
Os meus dois braços se dissolveram. Eu afundava no escuro, mais leve e mais aflito.
O perdão. Vocês carregam mágoa como se fosse troféu. Guardam rancor de gente que nem lembra mais do que fez, e o veneno fica em vocês, não neles. Perdoar não é dizer que o outro estava certo. É parar de deixar o passado cobrar aluguel na sua cabeça. Chega aqui tanta gente que gastou a vida inteira com raiva, e descobre, tarde demais, que o outro seguiu leve. Só ela ficou presa.
As minhas pernas viraram luz, dos pés ao joelho.
O medo. O medo de tentar, de arriscar, de cair. Vocês preferem o tédio seguro ao risco de serem felizes. Ficam no emprego morno, na relação morna, na vida morna, porque mudar assusta. Eu te garanto uma verdade: ninguém chega aqui se arrependendo do que tentou e deu errado. Todos se arrependem do que não tentaram. O tombo dói um dia. O não tentei dói a vida inteira.
O resto das minhas pernas se desfez. Agora eu era só do tronco para cima, flutuando no breu.
A opinião dos outros. Vocês vivem presos ao que vão pensar. Deixam de ser quem são para caber no gosto de gente que nem vai lembrar de vocês. Moldam a vida inteira para agradar uma plateia ocupada demais com a própria vida para reparar na de vocês. Que desperdício de liberdade.
A minha barriga virou luz. O escuro parecia me engolir mais rápido.
E o corpo. Vocês passam a vida brigando com ele. Odiando o reflexo, maltratando, adiando o cuidado, só dando valor quando ele falha. O corpo é a única casa de vocês, e vocês vivem reclamando da casa em vez de morar nela. Deviam agradecer cada dia em que acordam e ele ainda funciona. Mas só percebem o milagre quando ele quebra.
O meu peito se dissolveu. Restavam os ombros, o pescoço, o rosto. E o pensamento.
A voz baixou, e ficou mais densa. Mais grave. Como quem vai dizer a verdade que segurou o tempo todo.
Mas tudo isso é só superfície. Tem uma lição embaixo de todas as outras. A mais importante. A única que muda tudo.
Qual?, eu perguntei, sentindo que me restava pouco.
E ele ficou em silêncio.
Um silêncio longo demais para quem está desaparecendo.
Continua amanhã.
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