Um aprendiz chegou ao mestre joalheiro, aflito.
Mestre, faz meses que eu guardo este ouro, e a peça não fica pronta. Falta uma pedra. Já apareceram várias, e nenhuma serviu. Estou cansado de esperar. Vou colocar qualquer uma e terminar logo.
O mestre pegou o ouro na mão, observou, e devolveu.
Me responda uma pergunta. Por que você guardou este ouro por tanto tempo?
Porque ele é bom. É o meu melhor material.
E você vai entregar o seu melhor material a qualquer pedra, só porque está com pressa de terminar?
O aprendiz ficou sem resposta.
O mestre sentou ao lado dele.
Existem dois erros no ofício, e os dois custam caro. O primeiro é achar que você está pronto. O ouro bruto não vira joia sozinho. Ele precisa ser fundido, martelado, limado, polido. Dói, e demora. Quem não se lapida fica a vida inteira sendo só pedaço de metal com potencial. Você já fez essa parte?
Fiz. Trabalhei nesse ouro por anos.
Então fez o mais difícil. Agora não estrague no mais fácil.
Qual é o mais fácil, mestre?
Desistir da pedra certa por cansaço. Olha, aprendiz: pedra bruta tem de sobra. Aparece toda hora, barata, abundante, querendo um lugar numa peça bonita. Ela não quer compor com você. Quer o seu ouro. Quer brilhar à custa do que você levou anos para lapidar.
O aprendiz olhou para as pedras espalhadas na mesa.
E como eu sei qual é a certa?
O mestre sorriu.
A certa não precisa do seu ouro para ter valor. Ela já é joia sozinha. Quando ela encosta na sua peça, não é ela que sobe. São as duas que brilham mais. Pedra bruta se pendura em você. Joia compõe com você. A diferença é essa.
O aprendiz guardou o ouro de volta no pano.
Então eu espero.
Espera, disse o mestre. Mas não parado. Espera lapidando. Quanto mais fina ficar a sua peça, menos pedra bruta vai se atrever a chegar perto. A joia certa só aparece quando você já virou joia também.
O aprendiz foi embora.
E o ouro seguiu ali, guardado, esperando.
Sem pressa de brilhar com quem não era à altura dele.
Deixe um comentário