Tem gente que vive se traduzindo.
Ajustando o tom, medindo a risada, escondendo o que acha demais, mostrando só a parte que imagina que o outro vai aprovar. Uma vida inteira editando a si mesmo para caber na régua dos outros.
E o cansaço disso é silencioso. Porque quando alguém gosta da sua versão editada, não é de você que gosta. É do personagem que você montou para agradar. E personagem cansa de ser mantido.
A verdade é mais simples, e mais corajosa. Quem for para ficar, fica pelo que você é. Do seu jeito estranho, intenso, quieto, demais, de menos, seja lá como você for. A pessoa certa não tolera quem você é. Ela sente prazer em assistir de perto.
Sintonia não se força. Ou tem, ou não tem. E quando tem, você não precisa diminuir nada. Você relaxa, aparece inteiro, e do outro lado alguém pensa: é exatamente isso que eu queria ver.
Mas aqui mora a armadilha, e ela é fina.
Ser autêntico não é passe livre para não mudar nada.
Tem gente que pega essa ideia bonita e usa como escudo. Eu sou assim, e pronto, como se fosse carimbo definitivo. Usa a autenticidade para justificar o que magoa, o que trava, o que já devia ter sido trabalhado faz tempo. Isso não é ser verdadeiro. É comodismo com nome bonito.
Existe diferença entre a sua essência e os seus defeitos. Essência é o que te faz você, e merece ser mostrada sem pedir desculpa. Defeito é o que te atrapalha, e merece ser encarado, não defendido. Autenticidade de verdade é ter coragem para as duas: honrar quem você é, e ainda assim lapidar o que precisa.
Então o jogo não é escolher entre ser você ou melhorar. É os dois ao mesmo tempo.
Seja inteiro, sem se encolher para caber em ninguém.
E seja honesto, sem se acomodar no que ainda pesa.
Porque a pessoa certa vai amar quem você é.
E vai torcer, junto, por quem você ainda está virando.
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