Vi dois aviões se cruzarem no céu.
Pela câmera, pareciam a um palmo um do outro. Dava aflição. Parecia que iam se chocar a qualquer segundo.
Não se chocaram.
Porque o que a imagem não mostrava era a distância. Um estava numa altura, o outro em outra. De onde eu via, quase se tocavam. Na verdade, nunca estiveram no mesmo lugar.
E aí eu pensei na vida.
Tem situação que parece que vai ser. Que chega perto, perto demais, e faz o peito apertar de tão possível. Uma pessoa, um trabalho, uma cidade, um plano. Você jura que era para dar certo. Que faltou um triz.
Mas talvez nunca tenha faltado nada.
Talvez, como os aviões, aquilo só estivesse numa altura diferente da sua. Perto aos olhos, longe na rota. Parecendo destino, sendo só perspectiva.
No instante, incomoda. A gente quer entender por que não foi, já que estava tão à mão. Por que apareceu, se era para passar. Por que chegou tão perto, se não era para ficar.
Só que a resposta quase nunca vem na hora.
Ela chega depois. Quando você já subiu, já mudou de altitude, e olha para trás e entende: se aquilo tivesse acontecido no tempo errado, teria sido colisão, não encontro.
Nem tudo que passa perto era para ser.
E nem tudo que não foi, foi perda. Às vezes é só rota. Duas linhas que se cruzam num ponto, brilham juntas por um instante, e seguem, cada uma para o céu que era o seu.
Algumas rotas passam perto só para você saber que ainda existe céu lá fora.
Não para ficar.
Para te lembrar de voar.
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