Tem gente que fala pouco e pensa demais.
Por fora, calma. Silêncio, sorriso contido, aquela paz que os outros até invejam. Por dentro, um estádio lotado. Mil vozes ao mesmo tempo, um pensamento puxando o outro, um barulho que não desliga nunca.
As pessoas confundem. Acham que quem é quieto é tranquilo. Muitas vezes é o contrário. Os mais quietos costumam ser os de mente mais barulhenta. Ficam calados por fora porque, lá dentro, já tem gente demais gritando.
E cansa. Você deita para dormir e a cabeça começa o segundo expediente. Revisa o dia, ensaia o amanhã, discute com quem nem está ali. Você queria só um instante de nada, e o nada nunca vem.
Por muito tempo a gente acredita que é assim e pronto. Que nasceu com esse motor e vai morrer com ele ligado. Que sossego é privilégio dos outros.
Não é.
A mente barulhenta não é a sua sentença. É um estado, não a sua essência. Você não é o barulho. Você está com a cabeça barulhenta. E estado tem saída.
Nem sempre a gente consegue sozinho. E tudo bem. Procurar ajuda não é fraqueza, é manutenção. Do jeito certo, com a ajuda certa, no tempo certo, a mente aquieta.
E quando ela aquieta pela primeira vez, é de tirar o fôlego.
Porque de repente vem o silêncio. Real. Você senta e não tem ninguém gritando lá dentro. Você respira e sobra espaço. Você olha para o nada e, pela primeira vez, o nada é só nada, e é lindo.
Quem sempre teve a mente cheia não sabe o luxo que é isso. É como se alguém tivesse baixado um volume que você nem sabia que dava para baixar. Você quase ri sozinho, de alívio. Como assim era possível? Como assim é só isso? Onde isso esteve a vida inteira?
E dá vontade de contar para todo mundo. De dizer para quem também vive no barulho: existe silêncio do outro lado. Eu ouvi. Eu senti. Eu não sabia, e agora sei.
O barulho passa.
E o silêncio, quando chega, é a coisa mais nova e mais bonita que você vai sentir.
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