Toda mãe tem uma relação de amor e guerra com a tecnologia.
O celular apita e vira emergência nacional. Some um ícone e o mundo acabou. Aparece uma tela que ela não reconhece e já é estraguei tudo. Uma notificação boba vira olha o que fizeram comigo.
A gente ri, mas com carinho. Porque no fundo é bonito. Elas cresceram num mundo que não tinha nada disso, e ainda assim encaram, do jeito delas, com aquela mistura de medo e teimosia.
Só que tem um detalhe que eu reparei, e que vai muito além do celular.
É a facilidade com que a gente transforma um probleminha no centro de tudo.
Um botão fora do lugar apaga a manhã inteira. Um item que não funciona ofusca dez que funcionam. A tela trava, e de repente nada mais presta, nem o dia, nem o aparelho novo.
E não é só com as mães. É com todos nós.
A gente tem um talento estranho para mirar no que está errado. O carro novo com um risco, e você só vê o risco. A viagem quase perfeita com um contratempo, e é o contratempo que sobra na memória. A vida cheia de motivos de pé, e o olho vai direto no único que caiu.
Talvez a maturidade seja isso. Aprender a ampliar o que funciona, não o que quebrou.
Parar, antes de reclamar, e contar o que está inteiro. O corpo que ainda te leva aonde você precisa. As pessoas que ainda ligam. O teto, a comida, a manhã que amanheceu de novo. O tanto que dá certo, em silêncio, sem pedir atenção, enquanto a gente só escuta o que range.
Problema vai existir sempre. Hoje é o celular, amanhã é outro motivo. Se a sua paz depender de não ter nenhum, ela nunca chega.
Mas se você aprender a enxergar, no meio do que incomoda, o tanto que está bom, a vida fica mais leve. Não porque os problemas sumiram. Porque eles deixaram de ser a única parte que você enxerga.
Olha para o que você tem de bom hoje.
Provavelmente é bem mais do que você andou reparando.
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