Até onde você deixa alguém entrar?
Na sua vida. Nas suas horas. Naquilo que só você sabe que dói.
A gente aprende tarde que o limite é nosso para dar. Se alguém passou por cima de você, uma parte da conta é sua, não por merecer o desrespeito, mas por nunca ter dito, com clareza, até aqui. Quem não desenha a própria linha entrega a caneta para o outro riscar onde quiser.
Então você aprende. Levanta muros. Define fronteiras. Passa a dizer não, a filtrar quem chega, a proteger o que é seu.
E aí vem a parte engraçada. Engraçada de doer.
A mesma muralha que te protege é a que te prende.
O muro não sabe a diferença entre quem vem te ferir e quem vem te amar. Ele barra os dois. Você construiu para não sofrer, e sem perceber construiu também para não viver. De dentro da fortaleza, você está a salvo. Só que salvo e sozinho começam a parecer a mesma palavra.
E tem o resto, que ninguém avisa. Você vai fazer a escolha certa na perspectiva errada. A pessoa certa na hora errada. A coragem no dia em que já era tarde. O espaço que você precisava, mas longe de quem cabia. Tempo e lugar quase nunca chegam alinhados. A vida é complexa desse jeito, ela raramente entrega a peça certa no encaixe certo.
E a parte mais amarga não é o tempo, nem o espaço, nem a pessoa certa na hora errada.
É descobrir que o muro mais difícil de atravessar é o que você mesmo levantou.
Que um dia vai ser preciso reabrir, com as próprias mãos, o que essas mesmas mãos fecharam. Passar de novo por dentro do que você cortou para não sentir.
Você poda para sobreviver.
E depois vive o resto tendo que atravessar, sozinho, tudo aquilo que você mesmo podou.
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