O passado não me pergunta se pode ficar. Ele fica.
Mora nos meus reflexos, nas minhas defesas, no jeito que eu recuo antes de entender o motivo. Tudo o que vivi está aqui dentro, decidindo por mim em silêncio.
Mas silêncio não é sentença.
O passado escreve a primeira metade da frase. A segunda ainda está em branco, e a caneta continua na minha mão. Essa é a liberdade que sobra: não a de apagar o que fui, mas a de discordar disso agora.
Trazer para a vida é simples e brutal. É reparar no instante em que eu ia repetir. É sentir o roteiro antigo subindo e escolher outra fala. É parar de usar o que me aconteceu como álibi para o que eu ainda não tive coragem de mudar.
O passado deixa mais espaço do que eu finjo acreditar.
O que me prende não é ele. Sou eu, segurando a porta que já está aberta.
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