Eriec Soulz

A realidade paralela por detrás dos meus olhos

A Técnica do Esgotamento

Sabe quando você gosta muito de um alimento?

Mas gosta MUITO.

Então você compra.

Come hoje.

Come amanhã.

Come de novo.

Até que chega um dia em que você olha para aquilo e pensa:

“Eu não quero ver isso na minha frente nunca mais.”

Meses depois, alguém oferece e você ainda responde:

“Deus me livre.”

Eu chamo isso de Técnica do Esgotamento.

Eu inventei esse nome. A lógica por trás dele, nem tanto…

A psicologia e a neurociência já estudam fenômenos que ajudam a explicar por que determinados estímulos perdem força quando são repetidos.

Um deles é a habituação.

Quando somos expostos repetidamente a determinado estímulo, nossa resposta a ele pode diminuir. O cérebro aprende que aquilo já não merece o mesmo nível de atenção.

Também existe a saciação.

É muito fácil percebê-la com comida. O primeiro pedaço pode ser extraordinário. O segundo ainda é ótimo. No sexto, a experiência já não é exatamente a mesma.

O estímulo continua ali.

O valor que atribuímos a ele mudou.

Foi aí que comecei a perceber que E SE eu aplicasse essa lógica muito além da comida.

Eu faço isso com pensamentos.

Com sentimentos.

Com histórias.

Quando alguma experiência me atravessa profundamente, eu não sou muito bom em simplesmente decidir:

“Não vou mais pensar nisso.”
(FUI SINGELO AQUI, É BASICAMENTE IMPOSSÍVEL MINHA MENTE NÃO PENSAR)

Meu cérebro não funciona assim.

Então penso.

Falo.

Escrevo.

Questiono.

Analiso por outro ângulo.

Volto.

Analiso novamente.

Não necessariamente para permanecer naquela história, mas para retirar dela TUUUDOOO o que ainda parece precisar ser compreendido.

E existe um ponto em que a história ainda está na memória, mas já não provoca a mesma reação.

Para mim, isso é esgotamento.

Não é esquecer.

É lembrar sem precisar continuar.

Existe uma diferença importante aí.

Quando acessamos uma memória, ela não é necessariamente um arquivo completamente imóvel. Estudos sobre reconsolidação da memória mostram que lembranças podem ser atualizadas quando são recuperadas.

Isso ajuda a entender por que falar, elaborar e reinterpretar determinadas experiências pode modificar a maneira como reagimos a elas.

Mas seria muito conveniente terminar o texto aqui.

Porque então eu poderia vender a Técnica do Esgotamento como uma fórmula:

Quer parar de querer? Tenha mais.

E não.

O cérebro não funciona de maneira tão simples.

Em alguns comportamentos, a repetição produz exatamente o efeito contrário.

Quanto mais, mais.

Dependências deixam isso muito evidente. Álcool, nicotina, drogas, apostas e outros estímulos capazes de envolver intensamente os sistemas de recompensa podem ser fortalecidos pela repetição.

Você não necessariamente fuma até cansar de fumar.

Pode fumar até querer fumar ainda mais.

E existe uma versão menos evidente desse problema.

Você pode acreditar que está tentando esquecer alguém enquanto visita o perfil dessa pessoa todos os dias.

Pode acreditar que está processando uma experiência enquanto repete mentalmente a mesma conversa cinquenta vezes.

Pode acreditar que está elaborando uma dor enquanto procura constantemente novas informações capazes de mantê-la viva.

Nesse caso, não existe esgotamento.

Existe reforço.

E essa distinção é fundamental.

Processar não é alimentar.

Processar produz alguma transformação.

Uma pergunta encontra uma resposta.

Uma interpretação muda.

Uma culpa perde sentido.

Uma idealização quebra.

Uma lembrança deixa de exigir explicação.

Alimentar é diferente.

Você dá voltas e volta exatamente para o mesmo lugar.

Por isso, hoje acrescentaria uma condição à minha Técnica do Esgotamento:

Só existe esgotamento quando a repetição diminui o poder do estímulo.

Se cada contato aumenta a vontade, a ansiedade, a esperança, a obsessão ou a necessidade de mais contato, você não está esgotando.

Está abastecendo.

Talvez essa seja uma boa pergunta para levar para algumas áreas da vida:

Isso está perdendo força porque estou enfrentando ou ganhando força porque continuo alimentando?

Eu continuo gostando da minha Técnica do Esgotamento.

Principalmente porque ela me ensinou que nem sempre precisamos fugir imediatamente daquilo que sentimos.

Alguns pensamentos podem ser pensados.

Algumas perguntas podem ser repetidas.

Algumas histórias podem ser contadas até perderem a necessidade de serem contadas.

Mas existe uma sabedoria ainda maior em reconhecer aquilo que não se esgota com excesso.

Porque há desejos que morrem quando recebem demais.

E há desejos que transformam o “mais uma vez” em “só mais uma vez”.


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