Existe uma diferença entre ficar sozinho e sentir-se abandonado.
Quem nunca viveu o abandono costuma confundir as duas coisas. Mas elas não são iguais.
A solidão acontece no presente.
O abandono acontece no passado.
O abandono é uma ferida antiga que continua procurando confirmação.
Talvez seja por isso que algumas despedidas me machucam mais do que deveriam.
Porque elas nunca são apenas sobre aquela pessoa.
Elas carregam o peso de todas as outras.
O gatilho do abandono não nasce quando alguém vai embora. Ele nasce quando alguém importante foi embora cedo demais.
Talvez tenha começado com meu pai.
Talvez tenha crescido quando perdi minha avó.
Talvez tenha se fortalecido a cada mudança de cidade, de escola, de vida.
Enquanto outras crianças aprendiam que as pessoas permanecem, eu aprendia que elas partem.
E uma criança não entende contextos.
Ela não entende responsabilidades.
Ela não entende os motivos dos adultos.
Ela só entende a ausência.
Ela só entende que alguém que deveria estar ali não está mais.
Com o tempo, essa ausência deixa de ser uma lembrança e se transforma em uma lente.
Uma lente através da qual passamos a enxergar todos os relacionamentos.
Por isso, às vezes, uma mensagem não respondida parece maior do que realmente é.
Um afastamento temporário parece definitivo.
Uma discussão parece o começo do fim.
Não porque a situação seja tão grave.
Mas porque a ferida antiga acordou.
O abandono cria uma vigilância constante.
Uma parte de nós está sempre observando sinais.
Sempre procurando indícios.
Sempre tentando descobrir quem será o próximo a ir embora.
E existe algo cruel nisso.
Ao mesmo tempo em que desejamos desesperadamente criar vínculos profundos, também temos medo deles.
Porque quem cria raízes corre o risco de perder.
Então vivemos divididos.
Queremos ficar.
Mas estamos preparados para partir.
Queremos confiar.
Mas já estamos esperando a despedida.
Queremos amar.
Mas uma parte de nós continua acreditando que o amor tem prazo de validade.
A ironia é que o abandono nunca foi sobre a partida dos outros.
Foi sobre a história que construímos a partir dela.
A crença silenciosa de que não fomos suficientes para que alguém ficasse.
Mas hoje eu começo a entender uma coisa.
Meu pai não foi embora por minha causa.
Minha avó não partiu porque deixou de me amar.
As mudanças não aconteceram porque eu não merecia permanecer.
Muitas das despedidas que me marcaram não falavam sobre mim.
Falavam sobre a vida.
Sobre circunstâncias.
Sobre caminhos que eu não controlava.
Talvez a cura do abandono não esteja em convencer alguém a ficar.
Talvez esteja em descobrir que eu continuo inteiro mesmo quando alguém vai.
Porque, pela primeira vez, percebo que a pessoa que mais precisava permanecer na minha vida nunca foi meu pai, minha avó ou meus amigos.
Era eu.
E finalmente estou ficando.
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