Eriec Soulz

A realidade paralela por detrás dos meus olhos

A Arte de Não se Trair

Posso te fazer uma pergunta desconfortável?

Quantas vezes você já se abandonou para não ser abandonado pelos outros?

Talvez mais vezes do que gostaria de admitir.

A gente imagina que traição é algo que acontece entre duas pessoas. Um amigo que quebra a confiança. Um parceiro que mente. Alguém que promete ficar e vai embora.

Mas existe uma traição muito mais silenciosa.

Aquela que acontece quando você olha para si mesmo e decide não se ouvir.

Quando você sabe que algo está errado, mas permanece.

Quando percebe que um limite foi ultrapassado, mas se cala.

Quando sua intuição sussurra uma verdade e você faz de conta que não escutou.

As maiores dores da vida raramente começam quando alguém nos decepciona.

Elas começam quando nós nos decepcionamos.

Porque, no fundo, existe uma diferença enorme entre sofrer por uma escolha difícil e sofrer por ter ignorado a si mesmo.

Você já sentiu aquele aperto estranho no peito ao dizer “sim” quando queria dizer “não”?

Já percebeu o cansaço que surge quando você passa muito tempo tentando ser a versão que os outros esperam?

O corpo sempre sabe.

A alma sempre sabe.

Nós é que demoramos para admitir.

Existe um preço para ser autêntico.

Mas existe um preço ainda maior para viver distante de quem você é.

Toda vez que você aceita menos do que acredita merecer.

Toda vez que permanece onde já não existe verdade.

Toda vez que diminui sua voz para caber na expectativa de alguém.

Uma pequena parte sua fica para trás.

E o mais curioso é que quase nunca percebemos isso na hora.

A traição contra si mesmo não acontece em um único evento.

Ela acontece em pequenas concessões diárias.

Um silêncio que deveria ter sido uma conversa.

Uma conversa que deveria ter sido um limite.

Um limite que deveria ter sido uma despedida.

Até que um dia você acorda com a sensação de estar vivendo uma vida que não parece sua.

E talvez seja justamente aí que comece a liberdade.

No momento em que você entende que ser fiel a si mesmo não significa ser egoísta.

Significa ter coragem.

Coragem para perder o que precisa ser perdido.

Coragem para decepcionar algumas expectativas.

Coragem para sustentar verdades que nem todos irão compreender.

Porque existe algo pior do que ser rejeitado pelos outros.

É ser aceito pelos outros enquanto você abandona a si mesmo.

E poucas coisas custam tão caro quanto isso.

No fim, a arte de não se trair não está em nunca errar.

Está em voltar para si mesmo toda vez que perceber que se afastou.

Porque algumas perdas podem ser recuperadas.

Mas perder a própria essência é uma dívida que a vida cobra com juros.

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