Eriec Soulz

A realidade paralela por detrás dos meus olhos

Dar ao Outro a Chance de Ver o Próprio Fundo do Poço

A gente cresce ouvindo que quem ama não abandona. E eu acredito nisso. Mas, hoje, vejo que existe uma forma de amor que não se fala tanto: o amor que escolhe se afastar quando percebe que ficar é virar cúmplice de algo que machuca — a gente e o outro.

Quantas vezes a gente insiste? Conserta. Pega os pedaços. Junta o que o outro quebra. Puxa pra perto mesmo quando o outro faz questão de se afastar. É quase instintivo querer salvar. Mas salvar quem não quer ser salvo é um poço sem fundo — e às vezes a gente se afoga junto.

Eu tenho aprendido na marra que existe uma hora em que a nossa presença, por mais bem-intencionada que seja, deixa de ajudar e passa a atrasar o encontro do outro consigo mesmo. Porque enquanto a gente estiver ali, segurando as pontas, varrendo os cacos, carregando as consequências, o outro não sente o peso do próprio erro. Não se vê. Não se revê.

Dar espaço, nesse caso, não é castigo. É convite. Convite pra que o outro enxergue, sozinho, o tamanho do buraco que abriu debaixo dos pés. É só quando a pessoa bate no fundo que entende a necessidade de subir. E subir é decisão que ninguém toma por ninguém.

É doloroso? É. O peito aperta. A saudade morde. A culpa sussurra que talvez você devesse ter ficado. Mas ficar, às vezes, é só uma forma de adiar o inevitável. Quem não quer mudar não muda porque você insiste. Muda quando a vida aperta de um jeito que ninguém mais pode aliviar.

Eu quero aprender a ser porto, não boia. Quero ser quem abraça quando o outro volta, não quem se perde tentando arrastar quem não quer vir. Quero ser lembrado como alguém que esteve presente até o limite do que era saudável. E que soube sair quando percebeu que a mão estendida virava amarra.

No fim, amar também é confiar na força do outro — mesmo quando ela está soterrada por escolhas erradas. É segurar a própria vontade de consertar tudo e, em silêncio, abrir espaço pra que o outro se reencontre.

E quando (ou se) isso acontecer, que eu esteja de braços abertos. Mas inteiro. Em paz comigo mesmo, por ter respeitado o amor que tenho pelo outro sem trair o amor que tenho por mim.

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