Eriec Soulz

A realidade paralela por detrás dos meus olhos

Até onde vai minha força?

De vez em quando, eu me pego entrando em batalhas que não são minhas. É quase instintivo: eu vejo alguém caindo, alguém afundado nos próprios monstros, e sinto um impulso quase heroico de me atirar junto para tentar salvar. Talvez porque eu conheça demais o gosto do fundo do poço. Talvez porque eu tenha essa mania de acreditar que posso ser luz para todo mundo.

Mas aí vem o peso da pergunta que ecoa nas madrugadas mais sinceras: será que estou disposto a trazer esse problema para minha vida? Eu, que já carrego minhas próprias cicatrizes, que acordo todos os dias com uma lista de batalhas para lutar — internas, externas, velhas, novas. Eu, que já tenho que me manter inteiro para não desmoronar quando ninguém vê.

Pessoas doentes adoecem a gente. E não falo só da doença do corpo — falo de mentes confusas, corações sabotados, espíritos esgotados. Quando a gente mergulha na dor do outro sem colete salva-vidas, às vezes não volta. “Eu aguento”, a gente repete. E sim, aguenta por um tempo. Até que a gente começa a sangrar junto, a se perder no labirinto que era do outro. E aí, quem nos tira de lá?

A gente romantiza demais essa ideia de ser o salvador de alguém. Mas talvez a maior prova de amor — por nós mesmos e até pelo outro — seja admitir que não somos capazes de salvar quem não quer ser salvo. Que nossa força não é infinita, que nossa empatia também precisa de limites para não virar autoabandono.

Às vezes, ajudar é saber recuar. É estender a mão só até onde ela alcança, sem se atirar de cabeça num abismo que não nos pertence. É não confundir amor com resgate, bondade com autossacrifício.

No fim, a pergunta não é só se eu tenho força para tirar alguém de um buraco. É se eu estou disposto a sair de lá inteiro. Porque de nada vale resgatar o outro e me afundar em silêncio.

Que eu aprenda, dia após dia, que amar também é saber dizer “não posso”. Que empatia também é saber dizer “aqui eu paro, daqui pra frente é com você”. Que minha força seja grande, mas minha sabedoria seja maior ainda.

Talvez eu ainda tropece nesse instinto de carregar o mundo nas costas. Mas eu vou lembrar: ninguém é super-herói todos os dias. E tudo bem. Afinal, eu ainda tenho tantas batalhas — e, por mais que doa, não vou abrir mão de mim para lutar as que não são minhas.

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