Antes de tudo, eu preciso dizer: sim, estou generalizando. Eu sei que há exceções. Eu sou uma delas… ou talvez não. Afinal de contas, eu também estou ali. Entre luzes estroboscópicas, batidas eletrônicas e corpos que se tocam sem se olhar de verdade. Também danço, também beijo, também uso, também fujo. Mas, às vezes, no silêncio que vem depois do som, eu me pergunto: será que eu sou vazio assim também?
É curioso como em lugares tão cheios — de gente, de suor, de glitter, de performance — se escondem vazios tão grandes. E não falo só do vazio da sobriedade que vai embora com a madrugada, mas do vazio do afeto que não chega, da conexão que não se firma, do amor que nunca é inteiro. Porque o que a gente encontra ali é desejo em forma líquida: escorre pelos dedos, evapora com o tempo, se dissipa antes mesmo de virar memória.
Vivemos uma geração de amores descartáveis, onde todo mundo quer alguém, mas ninguém quer realmente ficar. E quando fica, não confia. É o medo de ser traído por quem a gente mal conhece, mesmo depois de meses juntos. É o ciúme sobre o story que curtiu, a mensagem que não respondeu, o olhar que desviou. Namoros regados a insegurança e desconfiança, onde o “eu te amo” virou um “me tranquiliza” disfarçado.
E no fundo, tudo isso revela uma coisa só: carência. Mas não a carência romântica, e sim a carência de nós mesmos. Porque estamos tão acostumados a buscar fora o que deveríamos nutrir por dentro, que passamos a aceitar qualquer presença só para não encarar a própria ausência.
As festas eletrônicas gays — e eu falo como parte disso — viraram uma espécie de anestesia coletiva. A droga que tira a dor, o beijo que tapa o buraco, a música alta que silencia o grito interno. É fácil amar todo mundo às 4 da manhã. Difícil é se amar às 4 da tarde, na segunda-feira.
Às vezes, eu percebo que não me importo com quem não me interessa. E isso me assusta. Porque se eu só dou atenção ao que me interessa, será que eu não viro também só mais um rosto na multidão para os outros? Será que não sou também aquele que foi usado, e usou, sem perceber? Será que estou presente de corpo e ausente de alma?
Eu vejo gente linda, por fora. Corpos esculpidos, filtros perfeitos, autoestima encenada. Mas, por dentro, uma insegurança imensa, camuflada por sorrisos e likes. Gente que se ama no Instagram, mas se odeia no espelho. Que tem mil amigos na festa, mas chora sozinho no Uber da volta.
E então a pergunta fica: estamos mesmo nos divertindo, ou só nos distraindo do que não queremos encarar?
Eu não quero ser moralista, nem hipócrita. Não há problema em dançar, beijar, transar, viver o agora. O problema é quando o agora vira a única coisa que resta, porque o amanhã parece assustador demais para ser construído.
Talvez o que falte nas festas não seja mais droga, mais luz, mais beijo, mais corpo. Talvez o que falte seja mais presença, mais verdade, mais silêncio compartilhado. Alguém que, no meio da música alta, olhe nos seus olhos e te veja de verdade — e não apenas te deseje.
Talvez o que falte seja coragem. De sentir, de se permitir, de não precisar estar anestesiado pra ser aceito. E principalmente, de voltar pra casa com a alma mais cheia do que vazia.
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