Eu aprendi a lidar comigo. Mas não sei lidar com o que inventam de mim.
Me acostumei com os dilemas da minha própria existência. A timidez que, às vezes, me faz parecer distante. As perguntas filosóficas demais para uma conversa casual. O jeito observador que analisa silêncios e não se empolga com superficialidades. Essa é minha essência. E eu a conheço bem.
Passei anos construindo uma paz dentro de mim. Aprendendo que nem todo mundo vai entender a profundidade de uma alma que sente demais e fala pouco. Que pensa antes de reagir. Que prefere entender em silêncio antes de apontar em voz alta. E tudo bem. Não espero que todos me leiam certo — nem quero.
Mas há algo que me desestabiliza. Algo que nem toda minha reflexão resolve: quando alguém pega meu silêncio e o traduz em arrogância. Quando meu jeito reservado vira motivo de julgamento. Quando meu pensar antes de agir é lido como frieza. Quando alguém diz que eu me acho “melhor”, quando na verdade eu só estou tentando ser melhor — pra mim mesmo.
E dói.
Dói porque não é sobre não gostarem de mim. É sobre distorcerem tudo aquilo que eu sou, como se minha calma fosse cálculo, meu respeito fosse desprezo, minha introspecção fosse superioridade.
Essa interpretação errada me atravessa.
Porque eu lutei muito para existir assim — sensível, inteiro, diferente. Eu lutei para me aceitar como sou. Para gostar de quem sou. E quando alguém vem e tenta desmontar isso com julgamentos rasos, não é fácil manter o centro.
É como se eu tivesse construído um templo interno, e de repente alguém quisesse riscar as paredes com frases que nunca saíram da minha boca.
Sim, eu sou introspectivo. Sim, eu sou profundo. E talvez por isso, o raso me machuque tanto.
Mas o que essa dor também me ensina — toda vez que volta — é que o que os outros acham de mim diz mais sobre eles do que sobre mim. E que nem todo mundo está pronto pra quem vive de verdade a própria profundidade.
Ainda assim, às vezes eu só queria que olhassem pra mim com a mesma sensibilidade com que eu olho o mundo. Mas, até lá… sigo firme. Falo menos, mas sinto mais. E me mantenho em paz com quem sou — mesmo que alguns insistam em me enxergar por espelhos quebrados.
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