Eriec Soulz

A realidade paralela por detrás dos meus olhos

Recreio – A Pior Hora do Dia

A infância e a adolescência deveriam ser tempos de descobertas, de formar quem somos e quem podemos ser. Para alguns, são tempos de liberdade, de criar laços e explorar o mundo com curiosidade. Para outros, como eu, esses anos foram marcados por uma sensação constante de inadequação, de ser deslocado em um mundo que parecia não ter espaço para alguém como eu. Ser diferente, nesse contexto, era como carregar uma marca visível, um alvo que atraía olhares cruéis e risos abafados.

Naqueles dias, a escola não era apenas um lugar de aprendizado. Para mim, era um campo de batalha. Não pela matemática ou pela história que tentavam ensinar, mas pelo simples fato de ser eu. Ser o garoto nerd, afeminado, em uma escola onde ser diferente era praticamente um crime. As horas se arrastavam em uma rotina que parecia igual para todos, mas havia um intervalo, um momento que eu temia como se fosse uma sentença diária: o recreio.

Uma hora. Sessenta minutos. Sessenta longos minutos de recreio, que para muitos eram apenas um momento de descanso, risadas, liberdade… Para mim, era uma hora de tortura. Um campo aberto para olhares cortantes, sussurros cruéis e, às vezes, o medo concreto de apanhar. Mesmo nos dias em que o soco ou o empurrão não vinham, o terror era constante. Eu vivia com o estômago revirado, esperando o próximo golpe, físico ou verbal. A violência pairava no ar, como uma ameaça invisível que nunca realmente ia embora.

Os professores, aqueles que deveriam proteger, pareciam fechar os olhos para o que acontecia. Eu me lembro de olhar para eles, esperando uma palavra, uma intervenção. Mas o silêncio era a resposta. Era como se o meu sofrimento fosse invisível. Talvez eu não gritasse alto o suficiente para ser ouvido, ou talvez o que eu vivia fosse considerado parte do “normal” daquele ambiente. Para eles, aquilo era apenas “coisa de criança”, uma fase que eu deveria superar sozinho.

Mas para mim, não era só uma fase. Era medo puro, transformado em rotina. Havia dias em que eu queria desaparecer, me encolher até não ser notado, até deixar de existir. Queria ser invisível, não para ser ignorado como os professores faziam, mas para me proteger da crueldade dos outros. Cada minuto daquela hora de recreio parecia uma eternidade, um teste de resistência que, em muitos momentos, eu achava que não conseguiria passar.

Agora, anos depois, eu olho para essas mesmas pessoas pelas redes sociais. Os rostos que me causavam tanto terror são diferentes agora, mais velhos, mais cansados, e, em alguns casos, vazios. Eu os vejo, não com o mesmo medo de antes, mas com uma certa distância. Alguns, confesso, eu observo com pena. O que eles se tornaram? O que realmente ganharam de todas aquelas horas em que me faziam sofrer?

Percebo que muitos não saíram do lugar, presos em suas próprias vidas medíocres, enquanto eu segui em frente, com cicatrizes, é verdade, mas cicatrizes que moldaram a pessoa que sou hoje. As feridas que eles causaram me ensinaram a ser mais forte, a ser mais resiliente. E, ironicamente, hoje sou eu quem olha para eles, de cima para baixo, com compaixão. Não porque eu tenha esquecido o que fizeram, mas porque vejo que, em muitos aspectos, eles ficaram parados no tempo, enquanto eu avancei.

Sim, eu fui a vítima. Sim, eu carreguei o medo por muito tempo. Mas, ao contrário deles, eu cresci. E hoje, ao olhar para trás, sinto que o que realmente dói é a pobreza de espírito que eles revelaram — uma pobreza que, ao que parece, nunca conseguiram superar.

Enquanto isso, o menino nerd e afeminado, que um dia vivia à sombra do medo no recreio, agora caminha pelo mundo com passos mais firmes e a leveza de quem se reconstruiu, transformando cicatrizes em força e vulnerabilidade em poder.

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