Desde pequeno, minha vida foi uma constante de idas e vindas, como se eu fosse sempre levado pelo vento, sem tempo para criar raízes. Mudanças de casa, de cidade, de escola… Cada novo lugar trazia rostos diferentes, mas nunca tempo suficiente para que esses rostos se transformassem em algo mais. Eu era sempre o novo, o que estava de passagem, e, aos poucos, isso se tornou parte de mim. A infância e a adolescência foram marcadas por um ciclo de começar de novo, e de novo, e de novo.
A cada mudança, eu deixava para trás não apenas pessoas e lugares, mas partes de mim mesmo. Aquelas amizades que pareciam promissoras eram arrancadas antes de poderem fincar suas raízes. Eu aprendi rápido que, para sobreviver, era melhor não me apegar tanto, não criar laços profundos. Eles só se transformariam em saudades pesadas, em memórias distantes que, no final, iriam desaparecer junto com o que ficava para trás.
Eu me tornei alguém que carrega essa capacidade quase inata de ir embora, de não olhar para trás. Onde outros enxergam despedidas difíceis, eu vejo uma facilidade quase assustadora em deixar ir. O desapego, que muitos lutam tanto para alcançar, para mim é tão natural quanto respirar. Não é que eu não tenha sentimentos ou que as pessoas não importem, mas é como se algo dentro de mim estivesse sempre pronto para a partida. Como se o laço nunca estivesse completamente atado, como se o fio que me liga ao outro fosse sempre um pouco mais fino.
Amizades, para mim, foram sempre temporárias, sempre fluídas, como se eu soubesse, desde cedo, que nada é para sempre. Eu me adapto rápido, me misturo, mas raramente permaneço. E isso, com o tempo, foi me moldando. Não criei vínculos que fossem sólidos, porque as raízes nunca tiveram tempo de crescer. Eu me acostumei a viver à superfície, a passar de um lugar ao outro, de uma pessoa à outra, sem o peso de uma permanência.
É fácil para mim desapegar. Quando as pessoas me falam sobre a dor de deixar para trás, eu entendo, mas não sinto da mesma forma. O ir embora se tornou uma parte tão natural da minha existência que, por vezes, nem sinto o impacto da separação. Eu sempre soube que iria embora, que era questão de tempo até o próximo adeus. Isso me deu uma independência que, aos olhos de muitos, parece força. Mas também carrega sua solidão.
Essa facilidade de ir embora, de não precisar de vínculos profundos, me protegeu, mas também me isolou. Eu me tornei um viajante constante, alguém sempre de passagem, incapaz de verdadeiramente ficar. Onde outros criam raízes, eu deixo marcas superficiais, rastros que logo o tempo apaga. O mundo é grande e eu sempre segui em frente, mas, às vezes, me pergunto o que seria ter ficado, o que seria ter deixado as raízes crescerem, uma vez que fosse.
Talvez nunca saberei. Porque, quando o vento soprar de novo, é provável que eu o siga, deixando para trás, mais uma vez, tudo aquilo que não tive tempo de segurar.
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