Eriec Soulz

A realidade paralela por detrás dos meus olhos

O Grito de Sobrevida

Eu olho para trás, lembro de mim no passado, como quem olha para um abismo já atravessado, mas que ainda carrega o eco de tudo o que vivi. Houve um tempo em que a dor era tão intensa que cada dia parecia uma batalha para manter o ar nos pulmões. O desespero me sufocava, as horas se arrastavam, e a solidão era uma companheira silenciosa que gritava dentro de mim. Eu queria explodir. Desaparecer. Sentia como se meu corpo não pudesse conter o turbilhão que se movia em meu peito, como se o mundo estivesse pesando mais do que eu poderia suportar.

A vida era um fardo. Cada pensamento, cada memória, uma corrente que me puxava para baixo. As lágrimas não vinham, como se o vazio houvesse engolido qualquer expressão de alívio. Me perguntei tantas vezes como era possível suportar aquela dor, aquele grito mudo que ninguém ouvia. Eu caminhava por entre as pessoas, mas elas não me viam. E, na escuridão de minhas noites sem fim, sentia como se minha própria existência estivesse se dissolvendo. E agora, por que continuar?

O cansaço se misturava com o desejo de simplesmente parar. De deixar que o peso se derramasse de mim e sumisse. Que eu sumisse. Havia uma parte de mim que acreditava que o fim seria mais leve do que o caminho que estava trilhando. Como o vento que some, como uma chama que se apaga, era o que eu ansiava, mesmo sabendo que essa não era uma saída real.

No auge da dor, algo sobreviveu. No momento em que eu estava à beira de me render, um outro eu, uma parte de mim que nunca me abandonou, ainda pulsava dentro de mim. Era o som de uma respiração profunda, como o primeiro suspiro após um mergulho sufocante. Esse outro eu, silencioso e resistente, era o que restava de mim, o que se recusava a desaparecer, mesmo quando tudo parecia perdido. Essa chama, quase invisível, jamais se apagou. Eu não sabia o porquê, não entendia como, mas esse eu gritava, mesmo que fosse apenas um sussurro: sobreviva.

Os dias eram lentos, o progresso quase imperceptível, mas, de alguma forma, o desespero começou a ceder lugar. Comecei a ver pequenos pontos de luz na escuridão. Não era uma mudança rápida, não era fácil. Cada passo adiante era doloroso. Mas, à medida que lutava, eu percebia que havia força em mim que eu desconhecia. Cada lágrima que finalmente escorria lavava um pouco da dor acumulada. E, aos poucos, a solidão que me devorava por dentro começou a se dissolver.

Eu encontrei a minha voz no meio do caos. Encontrei quem eu era além da dor. E, ao invés de explodir, eu me libertei. Não de uma forma calma e silenciosa, mas como uma força bruta que emerge de dentro, como um grito que rasga o ar e afirma: eu estou aqui.

Olho para trás agora e vejo a pessoa que eu fui, aquele ser despedaçado, e sinto compaixão. Porque ele não sabia a força que tinha. Não sabia que, apesar de tudo, sobreviveria e encontraria seu caminho. Hoje, estou aqui. Mais forte. Mais inteiro e íntegro. E, mais importante, vivo, FELIZ. Porque no fim, o que restou foi o que me salvou. Uma respiração profunda, um último suspiro antes de renascer.

Eu renasci.

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